Quatro Dcadas na TV

Por Trs das Cmeras

por Orestes Lucio Jardim Polverelli

 

Captulo I

 

A primeira dcada: de 1953 a 1962

 

Em 1953, aps alguns cursos de rdio e televiso, inclusive por correspondncia, e um estgio em uma oficina de consertos de aparelhos de tv, consegui meu primeiro emprego em dezembro, na Tv Tupi do Rio de Janeiro, a segunda emissora implantada no Brasil em meados de 1952 (a primeira foi a Tupi de S.Paulo). Foi graas a meu pai, que respondeu por mim, sem que eu soubesse, a um anncio solicitando tcnicos. Quando recebi o chamado para a entrevista, fiquei preocupado, pois meu pai escrevia muito bem, devia ter feito uma apologia dos meus conhecimentos tcnicos. No encontro com o entrevistador, que era o responsvel tcnico, de nome George Chorosum, contei o que tinha ocorrido e que eu no sabia o que estava escrito na carta. Disse tambm que tinha pouca experincia e somente em recepo de Tv, mas que estava disposto a trabalhar duro para obter aquela posio de tcnico. Ele me ouviu em silncio. Em seguida me falou sobre o salrio. Respondi que estava ok e ento ele me convidou para comear imediatamente a trabalhar. Nos meus 21 anos, fiquei no cu de to feliz. Nem podia acreditar no que estava acontecendo.

Logo aps ter sido apresentado aos tcnicos, recebi a primeira tarefa: desmontar equipamentos. Isso mesmo! que a emissora comprava equipamentos de sucata nos EUA e os desmontava para aproveitar parte das peas na manuteno ou montagem de unidades de reserva.

Meu empenho foi tanto que poucos dias depois George me mandou trabalhar nos transmissores, no Po de Acar. Era de tarde, por volta de umas quatro horas. Fui orientado pelo George a furar a fila de entrada na estao do bondinho e apresentar a carta que me designava como funcionrio da Tupi para trabalhar nos transmissores.

Cheguei por volta das seis horas. Estava escurecendo e, quando o bondinho ia subindo em direo ao morro da Urca, comearam a se acender as luzes da cidade. Fiquei todo arrepiado. Um sentimento indescritvel...

Depois subi para o segundo morro - o Po de Acar. Chegando l me apresentei ao chefe, entrei na sala dos transmissores. Bem, no tenho palavras para descrever meu deslumbramento. Fui apresentado ao pessoal e me sentei em frente ao monitor do console de operao. O monitor tinha muitos botes. A brincadeira era desajustar tudo para ver se eu conseguiria reajustar. Sabia que era necessrio ter cuidado para no marcar o tubo cinescpio, pois havia controles de largura e altura, e o monitor estava apagado. Como eu havia feito alguns cursos de rdio e tv e lia muito revistas tcnicas em ingls, rapidamente ajustei o monitor, para espanto do pessoal. Facilitei essa operao mantendo os controles de brilho e contraste fechados, ou seja, o monitor apagado; em seguida, ajustei todos os outros controles para a metade do curso. Ao abrir o brilho e o contraste, o monitor estava prximo do ajuste ideal.

A segunda tarefa foi mais difcil: fazer a leitura de mais de 50 medidores analgicos dos transmissores, que indicavam o funcionamento correto dos vrios circuitos. Levei mais de duas horas, sendo que as leituras deveriam ser feitas a cada hora de funcionamento.

Em poucos dias aprendi a ativar os transmissores. Aproveitando que o chefe estava ocupado mostrando a americanos as instalaes, executei todo o procedimento para o primeiro teste do dia. Quando o chefe percebeu, mandou que eu fizesse todo o procedimento para ver se havia esquecido alguma coisa. No tinha esquecido nada.

Rapidamente me integrei equipe.

Com o dinheiro que recebia da Tupi, iniciei a aquisio de mais de 50 livros sobre televiso e eletrnica.

George aparecia muitas vezes no Po de Acar. Conversvamos muito sobre filosofia. Fiquei sabendo que ele era russo e que seus pais fugiram para a Polnia. Em 1939, como ele tinha um brev de piloto, foi designado para co-piloto de um velho avio de bombardeio. Logo os alemes conseguiram derrubar o avio. A tripulao morreu, mas ele, conseguindo saltar de pra-quedas, foi capturado pelos alemes. Passou a guerra toda em campos de concentrao de trabalho forado.

Em trs meses eu passei a subchefe dos transmissores e, nove meses depois, a chefe. Foi um momento em que aprendi muito da minha profisso. L eu tinha muito tempo disponvel para ler e estudar Mas, depois de um ano e pouco de trabalho na Tv Tupi, no incio de 1955, uma reviravolta poltica de funcionrios antigos, antagnicos aos novos, destituram-nos das chefias e eu pedi demisso.

 

Na foto abaixo podemos ver alguns dos medidores analgicos.

VT-Compress (tm) Xing Technology Corp.VT-Compress (tm) Xing Technology Corp.George nos transmissores

Na poca tirei algumas fotos. Em uma delas, coloquei a mquina em exposio por uma hora com o diafragma em f-41 e a foto, como se pode ver abaixo, mostrou muitos raios ao fundo da Baa de Guanabara

VT-Compress (tm) Xing Technology Corp..

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VT-Compress (tm) Xing Technology Corp.VT-Compress (tm) Xing Technology Corp.Bondinho do morro do Po de Acar e vista de Niteri sob o luar.

VT-Compress (tm) Xing Technology Corp.Vista da torre de 60 metros

VT-Compress (tm) Xing Technology Corp.O console com o transmissor no fundo

VT-Compress (tm) Xing Technology Corp.
Vista da antena. Foto tirada a 45 metros de altura. Eu estive no topo.

O piso da sala dos transmissores era de placas de cortia, separadas por filetes dourados. Os transmissores ficavam instalados mais acima e havia um piso de tbuas corridas.

 

Eu havia ficado noivo de Maria Ignez Ribeiro e estava sem emprego.

Consegui, ento, um emprego na RCA de mecnico de Tv, para conserto em residncias, mas no me dei bem, apesar de ter sido bem tratado.

Um fato interessante foi que estavam parados na oficina uns sete aparelhos com defeito no AGC amplificado. Eu havia lido em um livro que o defeito era o diodo detetor. Procuramos diodos de qualidade e o problema foi solucionado.

Logo depois fui chamado pela GE, onde permaneci por cerca de um ano at me tornar funcionrio pblico.

Certa vez, o chefe da oficina da GE, Angerami, havia mandado tcnicos, por duas vezes, para consertar um aparelho que apresentava o seguinte defeito: a resistncia de desacoplamento de um estgio de freqncia intermediria estava queimando. O tcnico trocava a vlvula e a resistncia. Dias depois o defeito aparecia de novo. No momento em que ele me deu a ficha de manuteno eu disse: -J sei qual o defeito!. Chegando casa do cliente, abri o caneco de FI e retirei um fio deixado na montagem que produzia curto. Troquei a resistncia mas no troquei a vlvula. O que acontecia era que, ao retirar o chassi do aparelho de tv da caixa, o curto desaparecia. Depois, durante o funcionamento, com a vibrao do som, o curto voltava.

Outra manuteno interessante foi ao final de um dia na Tijuca. O defeito se apresentava depois de 10 minutos de funcionamento e o nome era dente de engrenagem. A imagem ficava toda estremecida como uma engrenagem. O motorista, que tambm era auxiliar tcnico, disse – J muito tarde e no d para ver esse defeito. Eu tinha lido em um livro que bastava trocar seis capacitores e o defeito era corrigido. Ao chegar casa da cliente eu fui abrindo o aparelho de tv e trocando os capacitores. A cliente disse: – O senhor nem viu o defeito e no vai ficar para ver se vai dar novamente?. Uns dez dias depois eu tive que voltar, pois havia esquecido um alicate dentro da tv. A cliente no sabia disso e, quando me viu, ficou espantada. Pedi desculpas e retirei a ferramenta. O aparelho estava funcionando normalmente.

Em setembro de 1955 eu me casei com Maria Ignez Ribeiro. A lua de mel foi de trs dias no Promenade Hotel, perto de Petrpolis. Fomos morar no Leblon, em um apartamento de quarto e sala na cobertura, na Rua Carlos de Gis

Em 1956, tornei-me funcionrio pblico e minha funo no tinha nada a ver com televiso ou eletrnica. O emprego era mais bem remunerado, com 36 horas de trabalho semanais, servio interno, enquanto na GE o servio era externo e mais de 40 horas por semana.

Em 1959, j com duas filhas – Lucia Ignez e Regina Lucia – as dificuldades aumentaram; o dinheiro no era suficiente, mesmo eu fazendo consertos de tvs aps o expediente normal.

Foi ento que um dia, quando ia cobrar de um cliente um conserto de tv, prximo a Tv Rio, que Belmiro, um tcnico que conheci na Tupi, esbarrou em mim de propsito, pois eu estava totalmente distrado e ele quis brincar comigo. Belmiro me levou a TV Rio e eu ajustei para ele um gerador de sincronismo da Dumont. Em seguida, apresentou-me a Jack Toroposky, chefe tcnico da emissora, que me contratou imediatamente.

Nessa segunda fase, eu comecei a ter alguns problemas, pois eu gostava de matar os defeitos por esquema, osciloscpio e outros aparelhos de teste. Os tcnicos achavam que deveria matar os defeitos por fotografia (defeito conhecido anteriormente) ou aleatoriamente. Isso criava alguns ressentimentos (sentimentos de rejeio). Foi quando descobri que existia uma mesa de corte da Philco, muito complexa, que ningum conseguia montar. Era um equipamento que usava rels telefnicos em miniatura de comando remoto e circuitos eletrnicos para efeitos especiais e remotamente comandados.

VT-Compress (tm) Xing Technology Corp.VT-Compress (tm) Xing Technology Corp.Ao lado, algumas das ligaes dos circuitos eletrnicos durante a fase de montagem e testes. Abaixo, Artur Seixas ( direita), que me ajudou na cabeao.

 

Eu encontrei muitas dificuldades, pois havia erro nos diagramas de funcionamento. De repente, quando no queria mais pensar nos diagramas, eu descobri o erro. Eu estava indo para casa de nibus, quando veio tona a soluo. Saltei um ponto de nibus aps minha casa.

File written by Adobe Photoshop 4.0Em 1960, eu e Belmiro resolvemos montar uma unidade de externa compacta com uma cmera e um transmissor de microondas em cima de uma caminhonete Wilis, para as transmisses de Carnaval. Conseguimos fazer muitas transmisses, inclusive em movimento. O carro ficou muito feio, mas funcionou bem.

Todas as gravaes da poca eram ao vivo, as cmeras da TV Rio, usadas e de fabricao Dumont.

Certa vez choveu muito e com isso o cabo do transmissor de microondas entrou em curto. Desmontei os conectores de ponta de cabo e verifiquei que o isolante estava torrado. Com um alicate de ponta, coloquei diretamente cada pino nos respectivos conectores do microondas, liguei o aparelho e comecei a varrer devagar a parbola para que o Sumar recebesse o sinal. Belmiro, que havia sado para pesquisar o visual, chegou dizendo que no seria possvel fazer a transmisso. Mas o Sumar j tinha avisado que estava recebendo o sinal. Ento transmitimos os desfiles das Escolas de Samba, que desfilavam na Rua Lobo Junior, em Madureira. Na tera-feira de Carnaval fizemos uma transmisso de (dentro) uma barca da Cantareira em movimento. noite, um operador falou que o clube Monte Lbano na Lagoa Rodrigo de Freitas apresentava um desfile de fantasias de luxo. Fomos para l e s samos do ar s 7 horas da manh da quarta-feira. No primeiro dia, sbado, fizemos uma transmisso em movimento da Praa XI, vazia. Aquela j no era mais a Praa XI de antes.

O prximo evento de porte foi a inaugurao de Braslia. A TV Rio comprou um VT quadruplex, fabricado pela Ampex, para o Rio de Janeiro e outro para Braslia. A Tv Tupi optou por VT Quad fabricado pela RCA.

A maioria dos tcnicos foi para a montagem de uma emissora em Braslia. Os VTs quadruplex eram uma novidade complexa que gravava vdeo e udio. Agora a tv deixava de ser somente ao vivo.

Eu tive que aprender a ajustar a mquina em um nico dia. Um tcnico americano, depois de montar e ajustar a mquina, deu uma nica aula. Acontece que Braslia estava com a rede eltrica em 60hertz e o Rio usava 50hertz. Para gravar programas para Braslia, eu tinha que passar a alimentao dos equipamentos para 60hertz e ajustar cmera, VT (vdeotape) etc. Acabada a gravao, tudo deveria voltar para 50hertz. Usvamos um gerador de externas que tinha pouca potncia. Falei, ento, com o filho do dono da TV Rio. Ele se comunicou com Jack, que estava em Braslia, e decidiram transferir um gerador do Sumar para o estdio. O pessoal dos transmissores chamava o gerador de febre amarela. Era pintado de amarelo e no funcionava bem. Dias depois, gerador instalado, chaves de transferncia da alimentao de corrente alternada pronta, transferi naquela tarde os equipamentos para a nova rede de 60hertz. Qual no foi minha surpresa ao descobrir que o telecine, que passava os filmes do negativo para o vdeo, no funcionava na nova rede. Os filmes vinham todos em negativo de Braslia. Leo Batista correu para o patro e eu fui chamado. Eu falei que poderia tentar modificar a cmera para passar os filmes negativos para o vdeo durante os 30 minutos da programao que vinha de S.Paulo via rede de microondas. Fiz a modificao, coloquei a chave de inverso para filme negativo e experimentei nos ltimos segundos da programao de S.Paulo. Deu certo! E o jornal foi ao ar.

 

 

Em 1964, eu estava na TV Rio quando o coronel Montagna tomou o forte Copacabana. Logo depois ele mandou embasar canhes antitanque na Av. Atlntica em frente emissora. Eu assisti tudo. Colocamos as cmeras na rua e comeamos a transmitir. Vimos o pblico vindo do Leme para o posto 6 prximo ao forte e Tv.