Quatro
DŽcadas na TV
Por
Tr‡s das C‰meras
por Orestes Lucio Jardim Polverelli
Cap’tulo II
A segunda dŽcada: de 1963 a 1972 – A dŽcada dos VTs quadruplex e helicoidal
No final de 1962, programas gravados no VT QUAD – eram VTs com quatro cabe�as rotativas e por isso chamados de quadruplex – foram ficando sofisticados. Um que ficou famoso foi o Chico An’sio Show, dirigido por Carlos Manga, e que deu muito trabalho, pois se fazia a edi�‹o cortando e emendando fita, como nas edi�›es de ‡udio. Marcelo Barbosa era o editor, mas sobrou um bom trabalho de pesquisa que eu tive que fazer. Ajustes finos na m‡quina e orienta�‹o para o problema de pulos de imagem, pois as edi�›es tinham que ser feita por quadros e os pulsos que eram revelados com um l’quido contendo part’culas de ferro em suspens‹o, mostrando pulsos de campo de Tv. O macete era, se a imagem pulasse, desfazer a colagem e fazer um novo corte e uma nova colagem no pr—ximo pulso. A colagem era feita com uma fita adesiva de alum’nio.
Em 1964 a TV Rio comprou mais
duas m‡quinas: QUADs que faziam edi�›es eletr™nicas,
evitando o corte de fitas de VT. A primeira m‡quina QUAD era totalmente
valvular. Essas novas eram h’bridas e tinham partes transistorizadas. Quero
lembrar que as fitas tinham 2 polegadas de largura e um rolo de uma hora pesava
8 quilos. Os cortes de fita obrigavam
a uma verdadeira gin‡stica.
Para os equipamentos novos,
eu projetei uma sala com divis—rias de vidro blindex,
que separava a ilha de edi�‹o eletr™nica de dois novos telecines; o corte de
v’deo que dava para o estœdio B e junto a mesa de opera�‹o de ‡udio; e cabine
de locu�‹o. Jack gostou da idŽia, obteve autoriza�‹o do patr‹o e projetou o
acabamento da ‡rea.
A mesa de corte de v’deo
tambŽm era um novo projeto feito por mim. Era uma mesa com transistor da Philco e o corte ocorria no tempo de
apagamento vertical. A teoria existia, mas era a œnica fabricada no Brasil e
talvez a primeira no mundo.
Em 1966 houve uma reviravolta pol’tica na TV Rio e eu fui transferido para a Toropovski Eletronica, uma subsidi‡ria da emissora chefiada por Jack. Era uma firma que fabricava equipamentos como transmissores/receptores de microondas, transmissores de ‡udio e v’deo, estabilizadores de v’deo entre outros.
Em novembro de 1966 consegui um emprego na TV Continental atravŽs de
um amigo que trabalhou na Toropovsky, Lara Campos, e
estava assessorando um grupo que pretendia o assumir controle da emissora. Fui
como assessor tŽcnico para chefiar a engenharia. Logo o grupo desistiu da
Continental, mas eu continuei como assessor, pois interessava meus servi�os
para manter principalmente os VTs. As c‰meras eram
RCA TK30 e a Tv
possu’a, alŽm de um VT QUAD, um VT660 helicoidal de 2 polegadas da Ampex que dava
muitos problemas.
O meu sal‡rio na Continental chegou a atrasar mais de 6 meses. Eu havia vendido meu primeiro apartamento e parte do dinheiro da venda foi que sustentou a fam’lia. Tive sorte, pois parte do dinheiro da venda eu empreguei em a�›es e, com o lucro, pude comprar o segundo apartamento em 1970.
Na Continental conheci o Dr. Gilson Amado, quem mais tarde assessorei para a implanta�‹o da TV Educativa.
Em abril de 1968 voltei para a TV Rio como diretor tŽcnico. Eu estava com uma a�‹o na justi�a e consegui que eles me pagassem o que deviam. Fiquei nessa emissora e na Continental atŽ outubro, quando fui para a TV Globo.
A maior parte dos equipamentos era de fabrica�‹o RCA. Havia quatro estœdios, um audit—rio e tr�s salas de corte e de ‡udio. Uma das salas de corte atendia o audit—rio (estœdio A); outra o estœdio B e o de jornalismo; e outra para os estœdios C e D (onde eram gravadas as novelas). A edi�‹o de VT era equipada com dois QUADs iguais ao da TV Rio, que editavam e exibiam as novelas. Quando apresentavam defeito, tinham que ser consertados o mais r‡pido poss’vel, pois sem eles, os programas n‹o iam ao ar.
As c‰meras de estœdio eram
as TK 60, com tubos orticons de 4,5 polegadas. As c‰meras
da TV Rio e da Continental usavam tubos de 3 polegadas.
Instalados na Globo estavam dois telecines TK26 com projetores TP 66, de qualidade muito superior aos telecines das outras emissoras. Os telecines na Žpoca eram muito utilizados n‹o s— para passar filmes de sŽrie ou cinema, como tambŽm para jornalismo, que usava filmes negativos para revela�‹o r‡pida feita no laborat—rio da TV. N‹o existiam c‰meras e gravadores port‡teis de v’deo. Os primeiros surgiram em 1969 e custavam caro.
Ainda em 1968, quando foi criada a Funda�‹o Centro Brasileiro de TV Educativa, Lara Campos convenceu ao Dr. Gilson que eu era a solu�‹o para a implanta�‹o da TVE. Fiquei ent‹o com tr�s empregos: a TV Globo, o servi�o pœblico e o estudo para a implanta�‹o de um centro de treinamento para a TVE. Mas n‹o foi s— isso. Jorge Marciai Leal, diretor tŽcnico da Embratel, tambŽm me chamou para participar do projeto dos centros de TV locais. Seriam centros de comuta�‹o de sinais para a distribui�‹o de sinais de tv. Eu praticamente n‹o tinha hora para dormir.
Participei ent‹o com mais tr�s engenheiros do julgamento das propostas oferecidas para a implanta�‹o dos centros de comuta�‹o. Foram tr�s firmas que responderam ˆ licita�‹o: Marconi, RCA e NEC. Esta œltima foi a vencedora.
Com exce�‹o das novelas, a programa�‹o da Globo era toda ao vivo. O programa que dava mais trabalho era o do Chacrinha. A dificuldade era com o ‡udio, pois ele queria se ouvir bem e t’nhamos problemas com feedback: o famoso apito no ‡udio.
Veio a Copa do Mundo de futebol de 1970 e adaptamos um tv no sistema de cores PAL-M, que estava sendo implantado no Brasil para passarmos a ter imagens de tv coloridas. O Centro de tv da Embratel possu’a um transcoder que convertia o sinal que chegava do MŽxico em NTSC, o sistema de cores dos Estados Unidos.
Em 1971, as emissoras brasileiras
mandaram pessoal de v‡rias ‡reas, como cenografia, maquiagem, tŽcnicos e
operadores, para a Alemanha, para cursos em tv
colorida. Eu, ent‹o, fui participar desses cursos que foram realizados, na
maior parte do tempo, em Berlim, na emissora Sender Freies Berlim.
Estivemos tambŽm na f‡brica de equipamentos de tv da Fernseh e no centro de treinamento de Hanover da Telefunken, fabricante de aparelhos de televis‹o. Foram cerca de 40 dias. Ficamos impressionados com as instala�›es da Tv para uma produ�‹o de t‹o poucas horas mensais. N—s n‹o visitamos o principal centro de Tv da Alemanha, que ficava em Munique.
O edif’cio da Sender Freies foi projetado pela BBC de Londres. Os estœdios foram montados em cima de amortecedores, para evitar tremores produzidos pelo tr‡fego pesado que flu’a nas adjac�ncias.
AlŽm do curso, eu e Adilson Pontes Malta estivemos na f‡brica da Fernseh, verificando os equipamentos de tv a cores que a Globo havia comprado. Aproveitei para ver os equipamentos doados a TVE pela Funda�‹o Komrad Adenauer. Eram equipamentos de tv em preto e branco.
Aqui abro par�nteses para
falar da TVE. No final de 1969, fiz um projeto: a licita�‹o
e instala�‹o de um Centro de Tv para treinamento de
pessoal no œltimo andar de um edif’cio que ficava na Av. N.S. de Copacabana, pr—ximo
ao cinema Roxi, e contei com a colabora�‹o do
engenheiro Luiz Alfredo Salom‹o. A licita�‹o foi ganha pela Philips e o equipamento consistia de
duas c‰meras de estœdio com tubos plubicon de 1
polegada, um telecine com c‰mera vidicon, mesa de
corte com alguns efeitos, console de ‡udio, ilumina�‹o de estœdio, dois vtrs (videotape recorders) helicoidais
da Ampex para edi�‹o dos programas e
equipamentos de monitora�‹o.
A ‡rea de estœdio e opera�‹o era de aproximadamente 100 metros quadrados. Os programas eram exibidos pela TV Tupi. Para a exibi�‹o t’nhamos que levar o vtrs, pois a Tupi n‹o possu’a helicoidais. Conseguimos ent‹o comprar um VT QUAD, o que facilitou o procedimento de exibi�‹o.
Em 1970, a Funda�‹o Komrad Adenauer ofereceu a doa�‹o de equipamentos P/B. Escolhi o que havia de melhor. A TVE ficou a cargo de construir as ‡reas para instala�‹o dos equipamentos. Fizemos muitos projetos para as ‡reas dos estœdios, mas no final a constru�‹o foi feita rapidamente, de forma que a instala�‹o dos equipamentos pelos alem‹es fosse feita antes das olimp’adas de 1972.
Veja: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/tv-educativa-tve
Voltando a TV Globo, em novembro de 1968 a emissora foi chamada para a transmiss‹o do Ato Institucional n¼. 5, no Pal‡cio Laranjeiras. O carro de externa foi escoltado por batedores de moto. N‹o foi poss’vel fechar o enlace de microondas para a transmiss‹o ao vivo, ent‹o a grava�‹o foi levada do carro de externa para um carro oficial, com batedores, pelo do Tœnel Rebou�as, ainda n‹o inaugurado, para a imediata exibi�‹o na emissora no Jardim Bot‰nico.
Em 1969, eu estava na emissora quando foi transmitido o homem pisando na lua, na estrŽia do Jornal Nacional.
Em 1970 e 1971, participei da instala�‹o, montagem e opera�‹o de dois Festivais da Can�‹o. Eventos complexos, realizados no Maracan‹zinho, envolviam ilumina�‹o, capta�‹o de ‡udio com mais de 50 microfones, v‡rios consoles de ‡udio e amplifica�‹o para o pœblico. Toda a montagem era feita pelos tŽcnicos e operadores da Tv. A ilumina�‹o usava duas casas de for�a. A quantidade de cabos era infernal.
Nos anos 70, a Globo comprou mais alguns VTs
QUAD, montou mais uma ilha de edi�‹o e partiu para grava�‹o de alguns programas
e outra novela. A TV Paulista, adquirida pela TV Globo, pegou fogo e mais uma
novela passou a ser gravada e editada no Rio (pois tr�s novelas j‡ eram
gravadas no Rio de Janeiro).
O audit—rio que ficava no estœdio A pegou fogo, ent‹o a emissora teve que alugar o Teatro Phoenix. Ap—s montados os equipamentos de v’deo, ‡udio e ilumina�‹o, a programa�‹o do audit—rio passou a ser feita de l‡.
A essa altura, 1972, os equipamentos a cores chegaram e iniciou-se o ciclo da programa�‹o colorida. O primeiro programa a ser transmitido com essa nova tecnologia foi o do Chacrinha, ao vivo. Depois veio o primeiro programa editado, A Primeira Valsa.
Na TVE, em fevereiro de 1972, os alem‹es j‡ haviam terminado a instala�‹o dos equipamentos nesse novo centro de tv na Av. Gomes Freire. Por causa da umidade relativa do ar, n‹o conseguiram fazer com que os equipamentos fossem utilizados.
A TV Globo determinou que eu pedisse demiss‹o da TVE, o que fiz a partir de mar�o.
Em junho fui chamado pelo Dr. Gilson, pois n‹o conseguiam usar os equipamentos novos. Aceitei o desafio e pedi demiss‹o da Globo. O problema era a umidade e eu resolvi usar os equipamentos de ilumina�‹o para aquecer as ‡reas tŽcnicas, com os equipamentos e o ar condicionado desligados. Depois de alguns dias liguei o ar condicionado com a ilumina�‹o ligada e deu certo – os equipamentos passaram a funcionar.
Foram constru’dos tr�s estœdios, sendo o maior com 24 metros de comprimento e 18 de largura, o estœdio 3, onde foram instalados os equipamentos doados. O local era a Av. Gomes Freire, no centro da cidade.
Logo transferi os equipamentos de Copacabana para o estœdio 1, cuja ‡rea era de mais de 200 metros quadrados, fora a ‡rea de opera�‹o, com mais de 40 metros. A ‡rea total da instala�‹o de Copacabana era de 100m².
Come�ou a ser feito o estudo para a realiza�‹o das grava�›es da novela Jo‹o da Silva e seria realizada com os novos equipamentos. Jo‹o da Silva era uma idŽia do Dr. Gilson para atrair aqueles que n‹o haviam completado as cinco primeiras sŽries. AlŽm das matŽrias b‡sicas, exibia aulas pr‡ticas para, por exemplo, ensinar a tirar a carteira de trabalho.
Durante as pesquisas, verificamos a inconveni�ncia de usar cinema para as grava�›es externas. N‹o t’nhamos unidade m—vel nem equipamentos port‡teis. Poucos eram os profissionais de cinema dispon’veis no Brasil naquela Žpoca. Os profissionais de cinema que trabalhavam na Tv eram treinados apenas para jornalismo.
Selecionamos uma equipe de tŽcnicos e operadores para realiza�‹o da novela. O diretor do programa foi Geraldo CasŽ, que acumulava o cargo de Diretor de Produ�‹o.
O estœdio 1 continuava com grava�›es das antigas e novas sŽries. Com melhores recursos e instala�›es, as grava�›es ficaram bem mais ‡geis e de melhor qualidade.
Abaixo: teto de ilumina�‹o do importado da
Alemanha, corte e efeitos de v’deo e opera�‹o de c‰meras do estœdio 3





Os europeus produziam a maior parte dos programas externos em filme. Os alem‹es, ao doarem os equipamentos, imaginaram que n‹o seria diferente no Brasil. Recebemos duas c‰meras BL16 e adquirimos uma BL35 da Arriflex, todas blimpadas e com a grava�‹o de ‡udio feita em gravadores port‡teis Nagra de ¼ de polegada com piloton, ou seja, em sincronismo com as c‰meras. Para a edi�‹o de filmes, foram instaladas duas mesas de edi�‹o Stainbeck e uma ilha de sonoriza�‹o com duas reprodutoras e uma gravadora, utilizando fita magnŽtica perfurada. Uma das m‡quinas reproduzia o filme e tinha uma c‰mera P/B, o que facilitava a sonoriza�‹o.
As mesas de edi�‹o de filmes reproduziam o filme e duas trilhas de
fita magnŽtica perfurada. Uma para som direto e outra alternando entre efeitos
e sonoriza�‹o. Na sala, t’nhamos um reprodutor de fita magnŽtica, de ¼ de
polegadas, que transmitia o piloton para sincronizar
uma gravadora de fita magnŽtica perfurada. TambŽm t’nhamos no telecine dois
projetores Bauer com reprodu�‹o de
fita magnŽtica perfurada, o que permitia a finaliza�‹o em v’deo.
A opera�‹o era bem complexa e exigia profissionais especializados.
Acima, a mesa de edi�‹o de filmes.
Antes de prosseguir, quero-lhes contar casos que considero interessantes e que ocorreram nas duas primeiras dŽcadas.
á No carnaval de 1960, na transmiss‹o do Clube Monte L’bano, colocamos a c‰mera no ch‹o, no meio do sal‹o, onde as pessoas dan�avam. Mauricio Coelho, camera man, tinha pouco espa�o para focalizar, e virava a torre de lentes da lente de 35mm para a de 135mm em pleno ar (ao vivo!), pois a Wilis s— tinha uma c‰mera. Mauricio tinha que fazer rapidamente o foco durante a transi�‹o de uma lente para outra. Eram big closes de pernas e outras coisas. Nunca mais foi poss’vel colocar uma c‰mera no meio da multid‹o num baile de Carnaval. Nenhum clube permitiu depois da nossa transmiss‹o.
á Em uma transmiss‹o de um julgamento no f—rum, est‡vamos concorrendo com a TV Tupi. S— era permitida a transmiss‹o nos intervalos, quando em recesso. Belmiro tirou o view finder da c‰mera Dumont e fingia fazer uma manuten�‹o, enquanto eu, que estava no lado de fora, na caminhonete em frente ˆ Unidade de Controle de C‰mera (CCU), ajudava a focaliza�‹o da c‰mera pelo fone. Em seguida, pedi ao SumarŽ para jogar no ar. Ficamos assim por alguns minutos atŽ o pessoal da Tupi ser alertado para o fato. Falei com o Antonio Castro de Oliveira: Ò– Tira do ar! Tira do ar, r‡pido!Ó. Desculpei-me com o pessoal da Tupi e disse que n‹o sabia do acontecido.
á
Em 1962, quando da posse de J‰nio Quadros, a TV Rio resolveu mandar
o carro de externa para Bras’lia. Era um Studbaker usado, comprado nos
EUA, que ainda teve que ir rebocando o gerador de externa. Junto seguiam duas
caminhonetes Wilis,
uma dirigida por mim e a outra por Antonio Castro. Por sorte, lev‡vamos um bom
mec‰nico de autom—veis. Sa’mos ˆ tarde e seguimos para Belo Horizonte, mas s—
chegamos j‡ com o dia amanhecendo. A U.M. (Unidade M—vel) andava muito devagar
nas subidas. Tomamos um cafŽ da manh‹ e seguimos para Sete Lagoas. Mas antes de
chegarmos ˆ cidade, tivemos que vadear um rio que havia transbordado. Com isso
o Studbaker
perdeu o freio. Paramos em Sete Lagoas e resolvemos almo�ar, pois, apesar da
pequena distancia de BH, levamos muito tempo devido ao congestionamento do tr‡fego.
Apesar da falta de freio, resolvemos continuar a viagem, mas paramos uns
quarenta quil™metros adiante. A Unidade M—vel perdeu o freio e s— parava
batendo nas caminhonetes (e cad� pesco�o?!). Chovia e est‡vamos bastante
molhados. Ao anoitecer, descobrimos uns indiv’duos que estavam fazendo uma
canja em uma bacia e vendendo para os caminhoneiros, com um bom peda�o de
bisnaga. A canja era muito rala, parecia mais ‡gua salgada. PorŽm, com a fome
que est‡vamos foi um manjar dos cŽus. Pela manh‹, uma Wilis foi a Sete Lagoas comprar
os reparos para o freio e voltou trazendo tambŽm sandu’che de mortadela e garrafas
tŽrmicas de cafŽ com leite. Foram trocados os reparos das rodas e, ap—s v‡rias
tentativas de reparo do burrinho de freio sem sucesso, perguntei ao Eider, chefe de externas, e ao mec‰nico como Ž que
funcionava. Enquanto me explicavam eu disse: Ò– N‹o entendi como o —leo sai
do dep—sito de —leo (da frente) para as rodas.Ó A’ eles perceberam que o reparo
do burrinho que havia sido substitu’do estava errado, pois n‹o servia, ent‹o sa’mos
catando o reparo antigo. O freio voltou a funcionar ap—s a reposi�‹o do velho
reparo. Continuamos a viagem e resolvemos empurrar o caminh‹o com as Wilis para
aumentar a velocidade. Na subida, col‡vamos no p‡ra-choque do gerador e empurr‡vamos
o ™nibus, aumentando a velocidade. Pr—ximo a Tr�s Marias, o ™nibus come�ou a
bater biela e paramos numa est‰ncia. Resolvemos seguir viagem colocando parte
dos equipamentos nas caminhonetes e deixando o mec‰nico com o ™nibus. J‡ era noite e, alguns quil™metros mais,
a transmiss‹o traseira da caminhonete, dirigida por Antonio, desmontou.
Colocamos as pe�as dentro do carro e seguimos viagem somente com a transmiss‹o
dianteira. Pouco depois, o d’namo do carro do Antonio deu problema e ele teve
que dirigir atr‡s do meu carro, pois n‹o era poss’vel ligar a luz. Continuava a
chover e tinha um pouco de nevoeiro. Eu estava com muito sono e tinha vis‹o em tœnel,
via as ‡rvores da beira da estrada como se fossem montanhas. Eu dormia no
volante e saia com o carro para o acostamento. Artur Seixas ia do meu lado
dormindo. Quando amanheceu o dia, meu carro come�ou a perder a for�a. Antonio
seguiu em frente e sumiu. J‡ na entrada de Bras’lia, o carro parou. Abrimos o
cap™ e verificamos que o motor cuspia combust’vel pelo carburador. Artur pegou
um t‡xi e foi buscar Antonio que trouxe uma pequena corda com menos de um metro
para nos rebocar. As Wilis
foram batendo p‡ra-choque atŽ a emissora da TV Rio em Bras’lia. O mec‰nico
conseguiu, com pe�as velhas de um trator, consertar o ™nibus. A transmiss‹o foi
um fiasco. Aconteceram muitos defeitos. A’ o patr‹o, Amaral Filho, mandou um
avi‹o da NAB (Navega�‹o AŽrea Brasileira), que estava falindo, para nos buscar
em Bras’lia. Era um velho DC3 cargueiro, com bancos de lona, que estava vindo
de Recife e o comandante estava pilotado a mais de 24 horas. Pegamos um vento
muito forte pela frente e o avi‹o pulava que nem um touro. Galocha, apelido de
um camera man, chingava o
comandante. Tr�s horas depois, tivemos de descer em BH para
reabastecimento. Quando est‡vamos chegando ao Rio, fui ˆ cabine me
desculpar com o comandante. Ele disse que a manuten�‹o do avi‹o era pŽssima e
que a m‡quina estava com muitos problemas, inclusive o piloto autom‡tico n‹o
estava funcionando. No final tudo acabou bem.
á A TV Rio possu’a duas c‰meras de filme: uma Sarkes Tarzian com tubo vidicon, parecida com a da foto ao lado, com um œnico projetor de 16 mm Bell Howel amador que s— reproduzia filmes diapositivos (aquela c‰mera que eu modifiquei para passar filmes negativos); e outra da GE com tubo Iconoscope, dois projetores de filme s’ncronos e dois projetores de slide amador. A c‰mera vidicon passava os filmes comerciais do intervalo e os filmes de sŽrie da Tv. Walter Clark, ent‹o diretor comercial, achava que as proje�›es estavam durando muito. Eu verifiquei nos projetores s’ncronos, cujo tempo de proje�‹o estava correto. Ele queria acelerar o intervalo e o projetor da Bell permitia isso, pois o que controlava a velocidade era um dispositivo chamado governador. Acelerei um pouco, mais um pouco, atŽ que os anunciantes perceberam que os tempos estavam menores, alŽm das vozes, um pouco mais agudas. Voltamos atr‡s. Voc� pode se perguntar porque n‹o us‡vamos a c‰mera da GE. Porque a opera�‹o era dific’lima. Para manter o shade, as sombras, corretamente, t’nhamos que acionar sete controles simultaneamente. E, quando pass‡vamos a rede elŽtrica para 60hertz, ter’amos que ter feito modifica�›es nos projetores de 16mm, que eram s’ncronos ˆ rede elŽtrica, e mudado os motores para manter a rota�‹o correta. PorŽm, n‹o possu’amos os motores.
á Outro acontecimento interessante. L‡ pelas 11 horas da noite, quando os trabalhos diminu’am, pois quase sempre era o hor‡rio dos filmes de sŽrie, sa’amos um grupo para comermos alguma coisa e tomar um cafezinho. No bate papo, eu contei que tinha lido na revista Sele�›es um flagrante da vida real: um motorista em NY percebeu um carro acompanhando-o, colado em sua traseira. Virou uma esquina, outra, e o carro continuava colado. Ele parou e foi reclamar com o motorista. Mas cad� o motorista? Todos come�aram a fazer chacota. Essa n‹o! N—s est‡vamos na Av. N.S.de Copacabana, quase chegando na TV Rio, quando um carro entrou, cantando pneus, de onde saltaram v‡rios rapazes e... havia um carro atr‡s enganchado no p‡ra-choque. Eles desengataram o carro e o deixaram l‡, no meio da rua.
á A TV Globo contratou a Continental em 1967 para a transmiss‹o de uma corrida no aut—dromo do Rio. Para a transmiss‹o era necess‡rio fechar dois enlaces de microondas. N‹o tinha visual do aut—dromo para a Globo, ou seja, havia obst‡culos que impediam a recep�‹o do sinal de microondas. Como s— possu’amos um gerador ele seria usado para o enlace repetidor. Foi permitido o uso do gerador do aut—dromo. Chamei o eletricista do aut—dromo, pois verifiquei que a liga�‹o do gerador estava errada e eles estavam ajustando o gerador com o controle manual. A liga�‹o para 120 volts estava entre fases quando deveria estar entre fase e neutro. A unidade m—vel da Continental funcionava em 220 volts. Falei com eletricista se eu podia mudar as liga�›es pois eu tinha que passar o gerador para autom‡tico e a tens‹o subiria para 220v. Ele disse que eu n‹o poderia mudar as liga�›es mas poderia passar o ajuste para autom‡tico. O equipamento da TV funcionou mas as geladeiras do aut—dromo queimaram.
á Para um Festival da Can�‹o, a TV Globo contratou a J B Lansing para a sonoriza�‹o do ambiente, ponto cr’tico do Maracan‹zinho. Os engenheiros dessa firma projetaram um cluster que pesava mais de duas toneladas. Ficou por conta da equipe tŽcnica subir a constela�‹o, cheia de caixas acœsticas e cornetas, usando para isso equipamentos manuais de monta carga. Logo de in’cio, o primeiro quebrou com o peso. Usamos, ent‹o, um outro semelhante, com ajuda de mais quatro pequenos monta carga. N‹o sei como conseguimos. Ainda tivemos que i�ar muitos quadros com com spots e panel›es para ilumina�‹o de cen‡rio e pœblico. AlŽm disso, o evento usava mais de 48 canais de microfones que tiveram seus cabos montados no local. Us‡vamos as duas casas de for�a do Maracan‹zinho e muitos geradores.
á A adapta�‹o do VT RCA para o sistema PAL-M foi feita por mim, por volta de 1972 na Globo. O VT estava funcionando bem, quando chegou um engenheiro da RCA da Inglaterra e disse que tinha que fazer algumas modifica�›es, pois o manual estava com informa�‹o errada. Voltou para a Inglaterra e deixou um problema no VT. Quando tinha que ser usado para misturar imagens na mesa de corte, como por exemplo, o Chroma Key, era cara ou coroa (havia chances de sair certo ou errado!). Ës vezes entrava em fase com a emissora (reprodu�‹o correta), ˆs vezes n‹o. E quando isso acontecia, as imagens sa’am esverdeadas. Isso ocorria muito no Jornal Nacional. Adilson nos chamou na manuten�‹o e brigou com Paulinho, um rapaz que eu estava formando para ser tŽcnico de VT e j‡ havia trabalhado na contabilidade da TV Continental, e Adilson descascou o verbo. Eu falei que eu era quem estava vendo o problema, pois era o œnico tŽcnico que estava a par das modifica�›es. E enquanto eu estava falando, de repente, eu tive um insight: Ò– Acabei de matar o defeito!Ó. Todos riram e disseram: Ò– Essa n‹o!Ó. Caminhamos em dire�‹o ˆ sala de VT e tivemos que esperar um pouco, pois estava sendo realizada uma edi�‹o em P/B. Assim que parou a edi�‹o eu falei para o Paulinho: Ò– Tira este m—dulo.Ó. Ao retirarem o m—dulo, Òplim plim plimÓ – uma porca caiu no ch‹o. O engenheiro havia perdido a porca e ela queimou um circuito. Os m—dulos eram circuitos transistorizados e o VT possu’a muitos m—dulos, por isso, n‹o era f‡cil localizar os defeitos.
á Outro caso de defeito em equipamento foi o do telecine que variava cores. Outro engenheiro da RCA, desta vez dos EUA, tentou resolver o problema e, ap—s alguns dias, disse que estava com saudades de casa, deixando tudo para tr‡s. Perdi uma noite para resolver. Quando ele voltou fez alguns retoques nos ajustes e tudo estava OK.