Quatro
Dcadas na TV
Por
Trs das Cmeras
por Orestes Lucio Jardim Polverelli
Captulo II
A segunda dcada: de 1963 a 1972 – A dcada dos VTs quadruplex e helicoidal
No final de 1962, programas gravados no VT QUAD – eram VTs com quatro cabeas rotativas e por isso chamados de quadruplex – foram ficando sofisticados. Um que ficou famoso foi o Chico Ansio Show, dirigido por Carlos Manga, e que deu muito trabalho, pois se fazia a edio cortando e emendando fita, como nas edies de udio. Marcelo Barbosa era o editor, mas sobrou um bom trabalho de pesquisa que eu tive que fazer. Ajustes finos na mquina e orientao para o problema de pulos de imagem, pois as edies tinham que ser feita por quadros e os pulsos que eram revelados com um lquido contendo partculas de ferro em suspenso, mostrando pulsos de campo de Tv. O macete era, se a imagem pulasse, desfazer a colagem e fazer um novo corte e uma nova colagem no prximo pulso. A colagem era feita com uma fita adesiva de alumnio.
Em 1964 a TV Rio comprou mais
duas mquinas: QUADs que faziam edies eletrnicas,
evitando o corte de fitas de VT. A primeira mquina QUAD era totalmente
valvular. Essas novas eram hbridas e tinham partes transistorizadas. Quero
lembrar que as fitas tinham 2 polegadas de largura e um rolo de uma hora pesava
8 quilos. Os cortes de fita obrigavam
a uma verdadeira ginstica.
Para os equipamentos novos,
eu projetei uma sala com divisrias de vidro blindex,
que separava a ilha de edio eletrnica de dois novos telecines; o corte de
vdeo que dava para o estdio B e junto a mesa de operao de udio; e cabine
de locuo. Jack gostou da idia, obteve autorizao do patro e projetou o
acabamento da rea.
A mesa de corte de vdeo
tambm era um novo projeto feito por mim. Era uma mesa com transistor da Philco e o corte ocorria no tempo de
apagamento vertical. A teoria existia, mas era a nica fabricada no Brasil e
talvez a primeira no mundo.
Em 1966 houve uma reviravolta poltica na TV Rio e eu fui transferido para a Toropovski Eletronica, uma subsidiria da emissora chefiada por Jack. Era uma firma que fabricava equipamentos como transmissores/receptores de microondas, transmissores de udio e vdeo, estabilizadores de vdeo entre outros.
Em novembro de 1966 consegui um emprego na TV Continental atravs de
um amigo que trabalhou na Toropovsky, Lara Campos, e
estava assessorando um grupo que pretendia o assumir controle da emissora. Fui
como assessor tcnico para chefiar a engenharia. Logo o grupo desistiu da
Continental, mas eu continuei como assessor, pois interessava meus servios
para manter principalmente os VTs. As cmeras eram
RCA TK30 e a Tv
possua, alm de um VT QUAD, um VT660 helicoidal de 2 polegadas da Ampex que dava
muitos problemas.
O meu salrio na Continental chegou a atrasar mais de 6 meses. Eu havia vendido meu primeiro apartamento e parte do dinheiro da venda foi que sustentou a famlia. Tive sorte, pois parte do dinheiro da venda eu empreguei em aes e, com o lucro, pude comprar o segundo apartamento em 1970.
Na Continental conheci o Dr. Gilson Amado, quem mais tarde assessorei para a implantao da TV Educativa.
Em abril de 1968 voltei para a TV Rio como diretor tcnico. Eu estava com uma ao na justia e consegui que eles me pagassem o que deviam. Fiquei nessa emissora e na Continental at outubro, quando fui para a TV Globo.
A maior parte dos equipamentos era de fabricao RCA. Havia quatro estdios, um auditrio e trs salas de corte e de udio. Uma das salas de corte atendia o auditrio (estdio A); outra o estdio B e o de jornalismo; e outra para os estdios C e D (onde eram gravadas as novelas). A edio de VT era equipada com dois QUADs iguais ao da TV Rio, que editavam e exibiam as novelas. Quando apresentavam defeito, tinham que ser consertados o mais rpido possvel, pois sem eles, os programas no iam ao ar.
As cmeras de estdio eram
as TK 60, com tubos orticons de 4,5 polegadas. As cmeras
da TV Rio e da Continental usavam tubos de 3 polegadas.
Instalados na Globo estavam dois telecines TK26 com projetores TP 66, de qualidade muito superior aos telecines das outras emissoras. Os telecines na poca eram muito utilizados no s para passar filmes de srie ou cinema, como tambm para jornalismo, que usava filmes negativos para revelao rpida feita no laboratrio da TV. No existiam cmeras e gravadores portteis de vdeo. Os primeiros surgiram em 1969 e custavam caro.
Ainda em 1968, quando foi criada a Fundao Centro Brasileiro de TV Educativa, Lara Campos convenceu ao Dr. Gilson que eu era a soluo para a implantao da TVE. Fiquei ento com trs empregos: a TV Globo, o servio pblico e o estudo para a implantao de um centro de treinamento para a TVE. Mas no foi s isso. Jorge Marciai Leal, diretor tcnico da Embratel, tambm me chamou para participar do projeto dos centros de TV locais. Seriam centros de comutao de sinais para a distribuio de sinais de tv. Eu praticamente no tinha hora para dormir.
Participei ento com mais trs engenheiros do julgamento das propostas oferecidas para a implantao dos centros de comutao. Foram trs firmas que responderam licitao: Marconi, RCA e NEC. Esta ltima foi a vencedora.
Com exceo das novelas, a programao da Globo era toda ao vivo. O programa que dava mais trabalho era o do Chacrinha. A dificuldade era com o udio, pois ele queria se ouvir bem e tnhamos problemas com feedback: o famoso apito no udio.
Veio a Copa do Mundo de futebol de 1970 e adaptamos um tv no sistema de cores PAL-M, que estava sendo implantado no Brasil para passarmos a ter imagens de tv coloridas. O Centro de tv da Embratel possua um transcoder que convertia o sinal que chegava do Mxico em NTSC, o sistema de cores dos Estados Unidos.
Em 1971, as emissoras brasileiras
mandaram pessoal de vrias reas, como cenografia, maquiagem, tcnicos e
operadores, para a Alemanha, para cursos em tv
colorida. Eu, ento, fui participar desses cursos que foram realizados, na
maior parte do tempo, em Berlim, na emissora Sender Freies Berlim.
Estivemos tambm na fbrica de equipamentos de tv da Fernseh e no centro de treinamento de Hanover da Telefunken, fabricante de aparelhos de televiso. Foram cerca de 40 dias. Ficamos impressionados com as instalaes da Tv para uma produo de to poucas horas mensais. Ns no visitamos o principal centro de Tv da Alemanha, que ficava em Munique.
O edifcio da Sender Freies foi projetado pela BBC de Londres. Os estdios foram montados em cima de amortecedores, para evitar tremores produzidos pelo trfego pesado que flua nas adjacncias.
Alm do curso, eu e Adilson Pontes Malta estivemos na fbrica da Fernseh, verificando os equipamentos de tv a cores que a Globo havia comprado. Aproveitei para ver os equipamentos doados a TVE pela Fundao Komrad Adenauer. Eram equipamentos de tv em preto e branco.
Aqui abro parnteses para
falar da TVE. No final de 1969, fiz um projeto: a licitao
e instalao de um Centro de Tv para treinamento de
pessoal no ltimo andar de um edifcio que ficava na Av. N.S. de Copacabana, prximo
ao cinema Roxi, e contei com a colaborao do
engenheiro Luiz Alfredo Salomo. A licitao foi ganha pela Philips e o equipamento consistia de
duas cmeras de estdio com tubos plubicon de 1
polegada, um telecine com cmera vidicon, mesa de
corte com alguns efeitos, console de udio, iluminao de estdio, dois vtrs (videotape recorders) helicoidais
da Ampex para edio dos programas e
equipamentos de monitorao.
A rea de estdio e operao era de aproximadamente 100 metros quadrados. Os programas eram exibidos pela TV Tupi. Para a exibio tnhamos que levar o vtrs, pois a Tupi no possua helicoidais. Conseguimos ento comprar um VT QUAD, o que facilitou o procedimento de exibio.
Em 1970, a Fundao Komrad Adenauer ofereceu a doao de equipamentos P/B. Escolhi o que havia de melhor. A TVE ficou a cargo de construir as reas para instalao dos equipamentos. Fizemos muitos projetos para as reas dos estdios, mas no final a construo foi feita rapidamente, de forma que a instalao dos equipamentos pelos alemes fosse feita antes das olimpadas de 1972.
Veja: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/tv-educativa-tve
Voltando a TV Globo, em novembro de 1968 a emissora foi chamada para a transmisso do Ato Institucional n. 5, no Palcio Laranjeiras. O carro de externa foi escoltado por batedores de moto. No foi possvel fechar o enlace de microondas para a transmisso ao vivo, ento a gravao foi levada do carro de externa para um carro oficial, com batedores, pelo do Tnel Rebouas, ainda no inaugurado, para a imediata exibio na emissora no Jardim Botnico.
Em 1969, eu estava na emissora quando foi transmitido o homem pisando na lua, na estria do Jornal Nacional.
Em 1970 e 1971, participei da instalao, montagem e operao de dois Festivais da Cano. Eventos complexos, realizados no Maracanzinho, envolviam iluminao, captao de udio com mais de 50 microfones, vrios consoles de udio e amplificao para o pblico. Toda a montagem era feita pelos tcnicos e operadores da Tv. A iluminao usava duas casas de fora. A quantidade de cabos era infernal.
Nos anos 70, a Globo comprou mais alguns VTs
QUAD, montou mais uma ilha de edio e partiu para gravao de alguns programas
e outra novela. A TV Paulista, adquirida pela TV Globo, pegou fogo e mais uma
novela passou a ser gravada e editada no Rio (pois trs novelas j eram
gravadas no Rio de Janeiro).
O auditrio que ficava no estdio A pegou fogo, ento a emissora teve que alugar o Teatro Phoenix. Aps montados os equipamentos de vdeo, udio e iluminao, a programao do auditrio passou a ser feita de l.
A essa altura, 1972, os equipamentos a cores chegaram e iniciou-se o ciclo da programao colorida. O primeiro programa a ser transmitido com essa nova tecnologia foi o do Chacrinha, ao vivo. Depois veio o primeiro programa editado, A Primeira Valsa.
Na TVE, em fevereiro de 1972, os alemes j haviam terminado a instalao dos equipamentos nesse novo centro de tv na Av. Gomes Freire. Por causa da umidade relativa do ar, no conseguiram fazer com que os equipamentos fossem utilizados.
A TV Globo determinou que eu pedisse demisso da TVE, o que fiz a partir de maro.
Em junho fui chamado pelo Dr. Gilson, pois no conseguiam usar os equipamentos novos. Aceitei o desafio e pedi demisso da Globo. O problema era a umidade e eu resolvi usar os equipamentos de iluminao para aquecer as reas tcnicas, com os equipamentos e o ar condicionado desligados. Depois de alguns dias liguei o ar condicionado com a iluminao ligada e deu certo – os equipamentos passaram a funcionar.
Foram construdos trs estdios, sendo o maior com 24 metros de comprimento e 18 de largura, o estdio 3, onde foram instalados os equipamentos doados. O local era a Av. Gomes Freire, no centro da cidade.
Logo transferi os equipamentos de Copacabana para o estdio 1, cuja rea era de mais de 200 metros quadrados, fora a rea de operao, com mais de 40 metros. A rea total da instalao de Copacabana era de 100m².
Comeou a ser feito o estudo para a realizao das gravaes da novela Joo da Silva e seria realizada com os novos equipamentos. Joo da Silva era uma idia do Dr. Gilson para atrair aqueles que no haviam completado as cinco primeiras sries. Alm das matrias bsicas, exibia aulas prticas para, por exemplo, ensinar a tirar a carteira de trabalho.
Durante as pesquisas, verificamos a inconvenincia de usar cinema para as gravaes externas. No tnhamos unidade mvel nem equipamentos portteis. Poucos eram os profissionais de cinema disponveis no Brasil naquela poca. Os profissionais de cinema que trabalhavam na Tv eram treinados apenas para jornalismo.
Selecionamos uma equipe de tcnicos e operadores para realizao da novela. O diretor do programa foi Geraldo Cas, que acumulava o cargo de Diretor de Produo.
O estdio 1 continuava com gravaes das antigas e novas sries. Com melhores recursos e instalaes, as gravaes ficaram bem mais geis e de melhor qualidade.
Abaixo: teto de iluminao do importado da
Alemanha, corte e efeitos de vdeo e operao de cmeras do estdio 3





Os europeus produziam a maior parte dos programas externos em filme. Os alemes, ao doarem os equipamentos, imaginaram que no seria diferente no Brasil. Recebemos duas cmeras BL16 e adquirimos uma BL35 da Arriflex, todas blimpadas e com a gravao de udio feita em gravadores portteis Nagra de ¼ de polegada com piloton, ou seja, em sincronismo com as cmeras. Para a edio de filmes, foram instaladas duas mesas de edio Stainbeck e uma ilha de sonorizao com duas reprodutoras e uma gravadora, utilizando fita magntica perfurada. Uma das mquinas reproduzia o filme e tinha uma cmera P/B, o que facilitava a sonorizao.
As mesas de edio de filmes reproduziam o filme e duas trilhas de
fita magntica perfurada. Uma para som direto e outra alternando entre efeitos
e sonorizao. Na sala, tnhamos um reprodutor de fita magntica, de ¼ de
polegadas, que transmitia o piloton para sincronizar
uma gravadora de fita magntica perfurada. Tambm tnhamos no telecine dois
projetores Bauer com reproduo de
fita magntica perfurada, o que permitia a finalizao em vdeo.
A operao era bem complexa e exigia profissionais especializados.
Acima, a mesa de edio de filmes.
Antes de prosseguir, quero-lhes contar casos que considero interessantes e que ocorreram nas duas primeiras dcadas.
No carnaval de 1960, na transmisso do Clube Monte Lbano, colocamos a cmera no cho, no meio do salo, onde as pessoas danavam. Mauricio Coelho, camera man, tinha pouco espao para focalizar, e virava a torre de lentes da lente de 35mm para a de 135mm em pleno ar (ao vivo!), pois a Wilis s tinha uma cmera. Mauricio tinha que fazer rapidamente o foco durante a transio de uma lente para outra. Eram big closes de pernas e outras coisas. Nunca mais foi possvel colocar uma cmera no meio da multido num baile de Carnaval. Nenhum clube permitiu depois da nossa transmisso.
Em uma transmisso de um julgamento no frum, estvamos concorrendo com a TV Tupi. S era permitida a transmisso nos intervalos, quando em recesso. Belmiro tirou o view finder da cmera Dumont e fingia fazer uma manuteno, enquanto eu, que estava no lado de fora, na caminhonete em frente Unidade de Controle de Cmera (CCU), ajudava a focalizao da cmera pelo fone. Em seguida, pedi ao Sumar para jogar no ar. Ficamos assim por alguns minutos at o pessoal da Tupi ser alertado para o fato. Falei com o Antonio Castro de Oliveira: – Tira do ar! Tira do ar, rpido!. Desculpei-me com o pessoal da Tupi e disse que no sabia do acontecido.
Em 1962, quando da posse de Jnio Quadros, a TV Rio resolveu mandar
o carro de externa para Braslia. Era um Studbaker usado, comprado nos
EUA, que ainda teve que ir rebocando o gerador de externa. Junto seguiam duas
caminhonetes Wilis,
uma dirigida por mim e a outra por Antonio Castro. Por sorte, levvamos um bom
mecnico de automveis. Samos tarde e seguimos para Belo Horizonte, mas s
chegamos j com o dia amanhecendo. A U.M. (Unidade Mvel) andava muito devagar
nas subidas. Tomamos um caf da manh e seguimos para Sete Lagoas. Mas antes de
chegarmos cidade, tivemos que vadear um rio que havia transbordado. Com isso
o Studbaker
perdeu o freio. Paramos em Sete Lagoas e resolvemos almoar, pois, apesar da
pequena distancia de BH, levamos muito tempo devido ao congestionamento do trfego.
Apesar da falta de freio, resolvemos continuar a viagem, mas paramos uns
quarenta quilmetros adiante. A Unidade Mvel perdeu o freio e s parava
batendo nas caminhonetes (e cad pescoo?!). Chovia e estvamos bastante
molhados. Ao anoitecer, descobrimos uns indivduos que estavam fazendo uma
canja em uma bacia e vendendo para os caminhoneiros, com um bom pedao de
bisnaga. A canja era muito rala, parecia mais gua salgada. Porm, com a fome
que estvamos foi um manjar dos cus. Pela manh, uma Wilis foi a Sete Lagoas comprar
os reparos para o freio e voltou trazendo tambm sanduche de mortadela e garrafas
trmicas de caf com leite. Foram trocados os reparos das rodas e, aps vrias
tentativas de reparo do burrinho de freio sem sucesso, perguntei ao Eider, chefe de externas, e ao mecnico como que
funcionava. Enquanto me explicavam eu disse: – No entendi como o leo sai
do depsito de leo (da frente) para as rodas. A eles perceberam que o reparo
do burrinho que havia sido substitudo estava errado, pois no servia, ento samos
catando o reparo antigo. O freio voltou a funcionar aps a reposio do velho
reparo. Continuamos a viagem e resolvemos empurrar o caminho com as Wilis para
aumentar a velocidade. Na subida, colvamos no pra-choque do gerador e empurrvamos
o nibus, aumentando a velocidade. Prximo a Trs Marias, o nibus comeou a
bater biela e paramos numa estncia. Resolvemos seguir viagem colocando parte
dos equipamentos nas caminhonetes e deixando o mecnico com o nibus. J era noite e, alguns quilmetros mais,
a transmisso traseira da caminhonete, dirigida por Antonio, desmontou.
Colocamos as peas dentro do carro e seguimos viagem somente com a transmisso
dianteira. Pouco depois, o dnamo do carro do Antonio deu problema e ele teve
que dirigir atrs do meu carro, pois no era possvel ligar a luz. Continuava a
chover e tinha um pouco de nevoeiro. Eu estava com muito sono e tinha viso em tnel,
via as rvores da beira da estrada como se fossem montanhas. Eu dormia no
volante e saia com o carro para o acostamento. Artur Seixas ia do meu lado
dormindo. Quando amanheceu o dia, meu carro comeou a perder a fora. Antonio
seguiu em frente e sumiu. J na entrada de Braslia, o carro parou. Abrimos o
cap e verificamos que o motor cuspia combustvel pelo carburador. Artur pegou
um txi e foi buscar Antonio que trouxe uma pequena corda com menos de um metro
para nos rebocar. As Wilis
foram batendo pra-choque at a emissora da TV Rio em Braslia. O mecnico
conseguiu, com peas velhas de um trator, consertar o nibus. A transmisso foi
um fiasco. Aconteceram muitos defeitos. A o patro, Amaral Filho, mandou um
avio da NAB (Navegao Area Brasileira), que estava falindo, para nos buscar
em Braslia. Era um velho DC3 cargueiro, com bancos de lona, que estava vindo
de Recife e o comandante estava pilotado a mais de 24 horas. Pegamos um vento
muito forte pela frente e o avio pulava que nem um touro. Galocha, apelido de
um camera man, chingava o
comandante. Trs horas depois, tivemos de descer em BH para
reabastecimento. Quando estvamos chegando ao Rio, fui cabine me
desculpar com o comandante. Ele disse que a manuteno do avio era pssima e
que a mquina estava com muitos problemas, inclusive o piloto automtico no
estava funcionando. No final tudo acabou bem.
A TV Rio possua duas cmeras de filme: uma Sarkes Tarzian com tubo vidicon, parecida com a da foto ao lado, com um nico projetor de 16 mm Bell Howel amador que s reproduzia filmes diapositivos (aquela cmera que eu modifiquei para passar filmes negativos); e outra da GE com tubo Iconoscope, dois projetores de filme sncronos e dois projetores de slide amador. A cmera vidicon passava os filmes comerciais do intervalo e os filmes de srie da Tv. Walter Clark, ento diretor comercial, achava que as projees estavam durando muito. Eu verifiquei nos projetores sncronos, cujo tempo de projeo estava correto. Ele queria acelerar o intervalo e o projetor da Bell permitia isso, pois o que controlava a velocidade era um dispositivo chamado governador. Acelerei um pouco, mais um pouco, at que os anunciantes perceberam que os tempos estavam menores, alm das vozes, um pouco mais agudas. Voltamos atrs. Voc pode se perguntar porque no usvamos a cmera da GE. Porque a operao era dificlima. Para manter o shade, as sombras, corretamente, tnhamos que acionar sete controles simultaneamente. E, quando passvamos a rede eltrica para 60hertz, teramos que ter feito modificaes nos projetores de 16mm, que eram sncronos rede eltrica, e mudado os motores para manter a rotao correta. Porm, no possuamos os motores.
Outro acontecimento interessante. L pelas 11 horas da noite, quando os trabalhos diminuam, pois quase sempre era o horrio dos filmes de srie, saamos um grupo para comermos alguma coisa e tomar um cafezinho. No bate papo, eu contei que tinha lido na revista Selees um flagrante da vida real: um motorista em NY percebeu um carro acompanhando-o, colado em sua traseira. Virou uma esquina, outra, e o carro continuava colado. Ele parou e foi reclamar com o motorista. Mas cad o motorista? Todos comearam a fazer chacota. Essa no! Ns estvamos na Av. N.S.de Copacabana, quase chegando na TV Rio, quando um carro entrou, cantando pneus, de onde saltaram vrios rapazes e... havia um carro atrs enganchado no pra-choque. Eles desengataram o carro e o deixaram l, no meio da rua.
A TV Globo contratou a Continental em 1967 para a transmisso de uma corrida no autdromo do Rio. Para a transmisso era necessrio fechar dois enlaces de microondas. No tinha visual do autdromo para a Globo, ou seja, havia obstculos que impediam a recepo do sinal de microondas. Como s possuamos um gerador ele seria usado para o enlace repetidor. Foi permitido o uso do gerador do autdromo. Chamei o eletricista do autdromo, pois verifiquei que a ligao do gerador estava errada e eles estavam ajustando o gerador com o controle manual. A ligao para 120 volts estava entre fases quando deveria estar entre fase e neutro. A unidade mvel da Continental funcionava em 220 volts. Falei com eletricista se eu podia mudar as ligaes pois eu tinha que passar o gerador para automtico e a tenso subiria para 220v. Ele disse que eu no poderia mudar as ligaes mas poderia passar o ajuste para automtico. O equipamento da TV funcionou mas as geladeiras do autdromo queimaram.
Para um Festival da Cano, a TV Globo contratou a J B Lansing para a sonorizao do ambiente, ponto crtico do Maracanzinho. Os engenheiros dessa firma projetaram um cluster que pesava mais de duas toneladas. Ficou por conta da equipe tcnica subir a constelao, cheia de caixas acsticas e cornetas, usando para isso equipamentos manuais de monta carga. Logo de incio, o primeiro quebrou com o peso. Usamos, ento, um outro semelhante, com ajuda de mais quatro pequenos monta carga. No sei como conseguimos. Ainda tivemos que iar muitos quadros com com spots e paneles para iluminao de cenrio e pblico. Alm disso, o evento usava mais de 48 canais de microfones que tiveram seus cabos montados no local. Usvamos as duas casas de fora do Maracanzinho e muitos geradores.
A adaptao do VT RCA para o sistema PAL-M foi feita por mim, por volta de 1972 na Globo. O VT estava funcionando bem, quando chegou um engenheiro da RCA da Inglaterra e disse que tinha que fazer algumas modificaes, pois o manual estava com informao errada. Voltou para a Inglaterra e deixou um problema no VT. Quando tinha que ser usado para misturar imagens na mesa de corte, como por exemplo, o Chroma Key, era cara ou coroa (havia chances de sair certo ou errado!). s vezes entrava em fase com a emissora (reproduo correta), s vezes no. E quando isso acontecia, as imagens saam esverdeadas. Isso ocorria muito no Jornal Nacional. Adilson nos chamou na manuteno e brigou com Paulinho, um rapaz que eu estava formando para ser tcnico de VT e j havia trabalhado na contabilidade da TV Continental, e Adilson descascou o verbo. Eu falei que eu era quem estava vendo o problema, pois era o nico tcnico que estava a par das modificaes. E enquanto eu estava falando, de repente, eu tive um insight: – Acabei de matar o defeito!. Todos riram e disseram: – Essa no!. Caminhamos em direo sala de VT e tivemos que esperar um pouco, pois estava sendo realizada uma edio em P/B. Assim que parou a edio eu falei para o Paulinho: – Tira este mdulo.. Ao retirarem o mdulo, plim plim plim – uma porca caiu no cho. O engenheiro havia perdido a porca e ela queimou um circuito. Os mdulos eram circuitos transistorizados e o VT possua muitos mdulos, por isso, no era fcil localizar os defeitos.
Outro caso de defeito em equipamento foi o do telecine que variava cores. Outro engenheiro da RCA, desta vez dos EUA, tentou resolver o problema e, aps alguns dias, disse que estava com saudades de casa, deixando tudo para trs. Perdi uma noite para resolver. Quando ele voltou fez alguns retoques nos ajustes e tudo estava OK.